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Ansiedade decisória no ambiente corporativo: o papel estratégico do jurídico na mitigação de riscos emocionais

6.3 A Função Estratégica da Documentação

Em ambiente regulatório mais rigoroso, as empresas precisam demonstrar não apenas que possuem políticas de gestão de riscos psicossociais, mas que efetivamente as implementam e monitoram. A documentação adequada — registros de mapeamento de riscos, planos de ação estruturados, evidências de monitoramento contínuo, capacitação de lideranças — funciona como elemento de mitigação jurídica e fortalecimento do compliance trabalhista .

A gestão de riscos psicossociais, nesse contexto, atua como instrumento de defesa preventiva. Empresas que demonstram diligência na identificação e mitigação desses fatores tendem a enfrentar menor vulnerabilidade processual .

7. Direito Comparado

7.1 Alemanha: A Diligência do Gestor Criterioso

O direito alemão exerceu influência decisiva na construção dos deveres fiduciários dos administradores em diversos ordenamentos jurídicos. O conceito de “diligência de um gestor criterioso e ordenado” — que remonta ao § 93 do Aktiengesetz (Lei das Sociedades por Ações) alemão — estabelece parâmetros objetivos para avaliar a conduta dos dirigentes empresariais .

A doutrina germânica enfatiza que o cuidado devido pelo administrador não se limita à observância de normas formais, mas abrange a gestão adequada de riscos e a consideração ponderada das consequências das decisões. Decisões tomadas sob influência de estados emocionais intensos, sem a reflexão adequada, podem configurar violação a esse dever de cuidado.

7.2 Estados Unidos: Business Judgment Rule e Intuição Decisória

O direito norte-americano desenvolveu a business judgment rule como mecanismo de proteção aos administradores que tomam decisões de boa-fé, com base em informações adequadas e sem conflito de interesses. A regra pressupõe exatamente o processo decisório cuidadoso que a ansiedade tende a comprometer.

Estudos norte-americanos sobre tomada de decisão empresarial têm enfatizado a importância de equilibrar intuição e análise. Pesquisas da Harvard Business Review indicam que líderes que utilizam ambas as abordagens tendem a obter resultados superiores .

7.3 Portugal: Deveres de Cuidado e Lealdade

O direito societário português, reformado em 2006, explicita no artigo 64º do Código das Sociedades Comerciais os deveres fundamentais dos administradores, divididos em deveres de cuidado e deveres de lealdade .

Os deveres de cuidado exigem que os gestores revelem “disponibilidade, competência técnica e conhecimento da atividade da sociedade adequados às suas funções, empregando nesse âmbito a diligência de um gestor criterioso e ordenado”. Os deveres de lealdade impõem que atuem “no interesse da sociedade, atendendo aos interesses de longo prazo dos sócios e ponderando os interesses dos outros sujeitos relevantes para a sustentabilidade da sociedade, tais como os seus trabalhadores, clientes e credores” .

Essa formulação explicita a dimensão temporal (longo prazo) e a consideração de múltiplos stakeholders que caracterizam a decisão empresarial responsável — exatamente o oposto da decisão precipitada movida por ansiedade.

7.4 Análise Comparativa

O exame do direito comparado revela convergência em torno da ideia de que a decisão empresarial responsável exige cuidado, reflexão e consideração ponderada de riscos e interesses. Os diferentes ordenamentos jurídicos, cada qual com suas particularidades, estabelecem parâmetros para avaliar a conduta dos administradores que pressupõem exatamente o processo decisório cuidadoso que a ansiedade tende a comprometer.

8. Considerações Finais

A ansiedade no ambiente corporativo não é fenômeno marginal ou questão exclusivamente pessoal. Trata-se de variável crítica que afeta diretamente a qualidade das decisões empresariais e, consequentemente, a saúde financeira, reputacional e jurídica das organizações.

O reconhecimento desse fato impõe às empresas a necessidade de desenvolver estruturas e processos que mitiguem os efeitos negativos da ansiedade decisória. Não se trata de eliminar a pressão — elemento inerente a ambientes competitivos — mas de criar condições para que as decisões, mesmo sob pressão, sejam tomadas com o cuidado e a reflexão adequados.

Nesse contexto, o papel do advogado in house ganha nova dimensão. Mais do que técnico do Direito, ele atua como guardião do processo decisório responsável, como contraponto à urgência desmedida, como voz que lembra, no momento adequado, que decisões precipitadas geram custos ocultos.

Essa atuação exige do profissional do Direito não apenas conhecimento jurídico sólido, mas também inteligência emocional desenvolvida, capacidade de comunicação eficaz e firmeza institucional para sustentar posições que, no curto prazo, podem parecer obstáculos, mas que no longo prazo revelam-se essenciais à preservação da organização.

A expressão “saber administrar o ambiente exige técnica, mas também equilíbrio emocional e firmeza institucional” sintetiza com precisão o desafio colocado ao advogado contemporâneo. Não se trata de escolher entre técnica e emoção, mas de integrá-las de forma produtiva — utilizando a técnica para estruturar decisões responsáveis e a inteligência emocional para navegar pelas pressões que inevitavelmente cercam o processo decisório.

Em última análise, cuidar da qualidade das decisões empresariais é cuidar da própria sustentabilidade da organização. E nessa tarefa, o advogado — com sua formação, sua perspectiva de longo prazo e sua posição institucional — tem contribuição insubstituível a oferecer.

 

Autor Ivair Ximenes Lopes

FONTES CONSULTADAS

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TAVOLARO, Renata. Gestão de riscos psicossociais e impactos jurídicos. Orienteme Blog, 2025.

GRANT THORNTON BRASIL. Compliance e os riscos psicossociais nas organizações. Insights, 11 ago. 2025.

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